O racismo não poupa sequer as crianças

                                                     O menino Kaiky Gonzaga

A última nota que escrevi para este blog foi sobre o mesmo tema ao qual tenho que retornar agora: a negação de símbolos da identidade negra nas novelas produzidas pela Rede Globo. Depois de personagens das novelas “Fina Estampa” e “Amor à Vida”, um outro desta última trama deverá moldar os cabelos aos padrões europeus. E desta vez é uma criança, o menino Kaiky Gonzaga, que interpreta Jayminho.
Segundo veículo da imprensa, um deles da própria Globo, o autor Walcyr Carrasco teria enviado a seguinte mensagem anexa ao capítulo: “Atenção amigos de caracterização e figurinos. Estas cenas se destinam a mudar a composição de Jayminho. Tenho ouvido de muita gente críticas muito pesadas e rejeição, principalmente, ao cabelo dele. Qualquer dúvida me liguem. Quero um personagem bem aceito”.
A mensagem explícita consubstanciada na palavra “rejeição” está covardemente destinada às crianças negras. Elas devem aprender desde tenra idade a rejeitar aspectos de sua identidade racial e tentar camuflá-los. Trata-se de uma violência cultural, que pode resultar em baixa autoestima e dificuldade de enfrentar os desafios da vida.
O efeito não incide apenas sobre o próprio ator e outras crianças negras que assistem à novela, cuja classificação é de 12 anos. Mesmo os que não assistem, provavelmente, já vivenciam situações de rejeição. Com um exemplo tão aplicável à sua realidade em horário nobre, as demonstrações de negação – e a autonegação – podem se intensificar.
O embranquecimento não significa o alcance do status branco, mas uma submissão/legitimação desse padrão de beleza. É por isso que qualquer sinalização não submetida à norma é considerado rebeldia e combatida. Quando Beyoncé experimentou um penteado no estilo rastafári, sofreu agressivas críticas de fãs.
Uma reação possível das crianças negras é o empenho em camuflar os elementos alvos da crítica. O fracasso na tentativa pode resultar em problemas ainda maiores. O alisamento do cabelo não impediu que as jovens do Bonde das Maravilhas continuassem sendo vítimas dos discursos racistas. Em uma foto recente na internet, o nariz de Thaysa Maravilha tornou-se o alvo do menosprezo racista.
Thaysa Maravilha, líder do Bonde das Maravilhas, é alvo de piadas racistas na internet
Fica nítido que a questão não é o cabelo, ou o nariz, mas a identidade racial em si. E que não é realista a possibilidade de disfarçar o pertencimento cultural, como recomenda a novela, pois o racismo está preso a concepções biológicas e essencialistas de identidade.
A TV brasileira é uma das mais racistas do mundo, o que fica evidente em seus dois produtos principais: as novelas e os telejornais. É mais fácil ver âncoras negros em uma TV inglesa do que brasileira. A pauta da grande mídia, quando não simplesmente ignora uma agenda progressista (por exemplo, uma mobilização do movimento negro contra o extermínio da juventude nos bairros populares), defende abertamente a pauta conservadora (por exemplo, é contra as cotas). Vigoram as estratégias de uma espécie de cartilha: invisibilizar, rejeitar ou secundarizar.
Quanto às novelas, houve um retrocesso racista após a exibição de “Lado a Lado”, em 2012. A trama havia dado destaque a atores e histórias negras, em uma perspectiva antirracista. Desde então, os personagens negros – quando existem – são pequenos, de apoio a personagens centrais ou núcleos sem importância. É a mesma cartilha: invisibilizar, rejeitar ou secundarizar.
Tramas globais insistem em rejeitar penteados afros e associá-los a um problemas de caráter
A própria novela “Amor à Vida” já foi alvo de bastante crítica pela completa ausência de personagens negras. O jovem Kaiky Gonzaga é um dos poucos que foram inseridos após as críticas. As personagens de Raquel Villar e Ana Carbatti têm cabelos crespos. Já o cabelo da personagem de Cassiano Barreto são cortados, como em breve serão o de Kaiky Gonzaga. A cartilha está plenamente vigente.
Na nota, Walcir Carrasco tenta se eximir da responsabilidade pela decisão, justificando-a pelo repúdio de telespectadores. É a velha resposta do lojista que culpa os clientes brancos pela rejeição do atendimento a pessoas negras. Cabe aí questionar se as novelas da Globo são destinadas a todos os brasileiros ou apenas aos racistas.

Uma ideia sobre “O racismo não poupa sequer as crianças

 Fonte: http://www.blogs.correionago.com.br/niltonluz/2013/10/19/o-racismo-nao-poupa-sequer-as-criancas/

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