Mercedes Sosa: A voz da América Latina


CULTURA
Por Laís Modelli
Caros Amigos
No dia 9 de julho de 1935 vinha ao mundo Mercedes Sosa, na altura 344 da Rua San Roque, em um bairro pobre de San Miguel de Tucumán, a Noroeste da Argentina. As culturas latinas estiveram enraizadas na menina de cabelos negros desde sua origem: Mercedes nasceu na data em que se comemora a Independência da Argentina e na cidade em que se proclamou a independência do país, em 1816.
Em muitas entrevistas, Mercedes lembra a infância pobre que teve junto aos pais e irmãos, dos dias em que iam dormir com fome e das noites que a mãe levava os filhos até o Parque 9 de Julho, para que não sentissem o cheiro de comida da vizinhança, pois em casa não tinham o que comer. “A pobreza sempre nos seguiu, mas nunca nos destruiu. Nos serviu para ajudar a ser livres. Para escolher nossa maneira de pensar”, dizia ela.
Filha de um carvoeiro e uma dona de casa, só aos sábados, quando o pai recebia o dinheiro pelo trabalho da semana, a mãe cozinhava, como um agrado à família, macarrão com manteiga, a comida especial que o dinheiro dava para comprar.
Mercedes, Marta, Gladys
Na família e na vizinhança da Rua San Roque, Mercedes era conhecida como Marta. O pai queria chamá-la de Haydée Mercedes, nome de sua mãe. Já a mãe de Mercedes exigiu que a menina fosse registrada como Marta. Ao descobrir que o marido havia registrado a filha como Haydée Mercedes Sosa, a mulher prometeu para sempre chamar a filha de Marta. E assim foi: até a morte de Mercedes, a cantora era chamada de Marta pela família e amigos de infância.
Aos 15 anos, durante uma viagem de seus pais a Buenos Aires, Mercedes se inscreveu sem que eles soubessem em um concurso de talentos da Radio LV12, de Tucumán, e venceu. Assinou seu primeiro contrato e começou sua carreira artística com o codinome de Gladys Osorio. Desde o início, dedicava-se a cantar música folclórica argentina e latino-americana. Passou a ser Mercedes Sosa anos depois, já morando na cidade de Mendoza, já ao lado do músico e companheiro Oscar Matus.
Em 1965, Mercedes ficou nacionalmente conhecida na Argentina ao participar do Festival Nacional de Folclore de Cosquín. Por causa da intensidade da sua voz e dos seus compridos cabelos negros, recebeu o apelido de “La Negra”; mais tarde, “A Voz da América Latina”, como a chamava seu amigo brasileiro Milton Nascimento.
A voz da América Latina
O respeito de Mercedes Sosa pela América Latina era visível nas suas roupas, sempre vestida com ponchos nos ombros, no seu apreço pelas culturas folclóricas e pelas letras políticas de suas músicas. No documentário “Mercedes Sosa, A Voz da América Latina”, o músico Leon Magico brinca que “Mercedes era nossa Mick Jagger, nossa Paul McCartney”; por causa da sua energia no palco. Para Chico Buarque, “Mercedes era um símbolo da liberdade, não só da Argentina, como de todos nós”.
Em Mendoza, uma década depois de ganhar o concurso, Mercedes e outros artistas populares argentinos iniciaram o movimento Nuevo Cancionero, para exaltar o folclore e evitar os modismos na cultura nacional. O músico Manuel Oscar Matus, um dos fundadores do movimento, era marido de Mercedes desde 1957 e, além do casamento, os dois faziam uma produtiva parceria musical. Assim nasceu o primeiro disco da cantora, editado por Matus por um selo independente: “Canciones con fundamento”. Circulou o país e o exterior em vários shows. Anos depois, em 71, gravou “Homenaje a Violeta Parra”.
Com o clima de opressão e violência política cada vez acentuado na Argentina, Mercedes gravou músicas carregadas de forte conteúdo social, denunciando a desigualdade e a injustiça na América Latina. Em 75, passou a ser ameaçada de morte. Sem se deixar intimidar, em 76, durante o Golpe de Estado na Argentina, gravou disco resgatando poetas com temática social latina, como Pablo Neruda e Ignacio Villa. Em 79, foi detida pelo regime argentino durante um show em La Plata e exilada a Paris e depois Madrid. Regressou do exílio somente em 82. Enquanto esteve proibida de cantar na Argentina, “La Negra” foi transformada em símbolo de luta social pelos jovens argentinos.

No Brasil, ganhou o público na parceria com Milton Nascimento, “Volver a los 17”, de Violeta Parra, que o mineiro registrou em “Gerais”, de 76. “Quem me levou até Mercedes Sosa foi Vinícius de Moraes. Nós fomos assistir a um show dela no Rio e eu não acreditei. Mercedes parecia que tinha uns três metros de altura. Vinícius me pegou pela mão e fomos ao camarim. Eu não queria ir de jeito nenhum. Mas, quando entrei, ela me viu e disse: ‘Milton!’. Levei um susto! Como assim, jamais pude imaginar que ela me conhecia. Não demorou muito e estávamos em estúdio gravando ‘Volver a los 17’, da Violeta Parra. Nossa amizade foi muito forte. Depois disso, nunca mais nos separamos. Fizemos muitas coisas juntos – tanto nos discos dela quanto nos meus. Gravamos um disco ao vivo em 1984, no estádio do Vélez Sarsfield e, principalmente: aprendi muito com ela”, conta o amigo e parceiro Milton, se referindo a “Corazón Americano”, disco que teve ainda participação do também argentino Léon Gieco.
“O próprio jeito que eu costumava me referir a ela, ‘A Voz da América Latina’, já diz tudo. Poucas coisas no universo tiveram a mesma força que Mercedes Sosa”, diz ele.
Em 1986, a parceria trouxe Mercedes ao Brasil para 25 apresentações com o mineiro, mais Caetano Veloso, Chico Buarque e Gal Costa. Em 88, como produtora, organizou um dos maiores espetáculos na Argentina, o Sin Fronteiras, somente com cantoras latinas. Uma delas foi Beth Carvalho. 
La Negra foi uma das únicas da música popular latina desta época a cantar em quase todos os países da Europa, Ásia e América. Não deixou de se apresentar e realizar turnês internacionais mesmo depois de começarem os problemas de saúde, por volta de 2005. Internada por problemas renais em setembro de 2009, Mercedes Sosa sofreu complicações e morreu no dia 4 de outubro, aos 74 anos.

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