No meio do caminho tinha um menino (amarrado ao poste)

No meio do caminho tinha um menino


No meio do caminho tinha um menino (amarrado ao poste)

Por Rosiane Rodrigues
Reproduzido da Afropress

No meio do caminho tinha um menino (amarrado ao poste)
Tinha um menino (amarrado ao poste) no meio do caminho
A cena chocou. É possível que o motivo da consternação tenha sido o local da ação e não a ação em si. Sim. Um menino, amarrado ao poste, em uma rua da Zona Sul do Rio de Janeiro, não é um fato comum. Meninos, amarrados em postes, baleados, espancados, violentados não cabem na paisagem da Zona Sul da cidade. Essas devem ser imagens periféricas, cotidianas das favelas, dos subúrbios. Imagens de barbárie que já não chocam nem causam espanto aos olhos dos que estão – e devem continuar – à margem.

"O 'menino amarrado ao poste' deu sorte. Ele poderia estar morto. Se assim fosse, seria mais um a entrar para a estatística da barbárie cometida diuturnamente, nos becos e vielas em todo País"

O "menino amarrado ao poste"' deu sorte. Ele poderia estar morto. Se assim fosse, seria mais um a entrar para a estatística da barbárie cometida diuturnamente nos becos e vielas em todo País. Imagens de corpos violados, machucados, inertes... reflexos distantes de uma realidade encoberta aos olhos sensíveis de uma parcela da população que teima em não querer enxergar: a indústria do genocídio da juventude preta e pobre.

Preto, pobre
Pesquisa do Ipea, divulgada recentemente, demonstra que 53 mil pessoas são assassinadas por ano no Brasil. Destes, a grande maioria é de jovens entre 15 e 29 anos, que possuem de quatro a sete anos de estudo formal. Sim. Jovens pretos, moradores de favelas. Incriminados por sua cor, estigmatizados por seus locais de origem. O que choca não é o ato, é a imagem. Na voz de muitos “era um marginalzinho, um bandidinho, que rouba carteiras de pedestres indefesos”, “Mereceu! Tinha que ter sido queimado”... esses foram apenas alguns comentários que li nos comentários dos sites dos grandes jornais que veicularam tão insólita notícia.
A moradora do bairro, ao invés de chamar a ambulância ou a polícia, postou a foto da cena numa rede social. Mais que uma febre que assola o mundo contemporâneo, a atitude da ‘denunciante’ faz parecer que meninos pretos, amarrados em postes, depois de espancados, não merecem ser atendidos por médicos, muito menos, terem o aparato jurídico-policial o tratando como vítima. Para uma grande parte dessa sociedade conectada, virtual, que faz até seis refeições por dia, esse é mais um menino que nasceu criminoso... cresceu e aprendeu que "vítima" não é o lugar que deve ser ocupado por gente como ele.
Meninos assim nascem aos montes... e se habituam a serem tratados por esse aparato (sócio-governamental) como um mal a ser combatido. Esse hábito não é apenas imposto, mas aceito por todos como algo natural. Para que chamar a polícia ou a ambulância para quem sabe que apanhar, ser humilhado e, daqui a pouco, morto, faz parte do cotidiano? Diriam alguns, é a vida... ou, em bom francês: c’ést la vie.

Monstrego
Uma cena deslocada na paisagem da cidade que se arruma – e é vendida – para receber milhares de turistas em poucos

"Uma cidade, cuja população, ao perceber a impossibilidade de lidar com suas pobrezas (...),  esconde seus famintos (...) em locais 'protegidos' (?!?!) por UPPs"

meses. Uma cidade que está nua de alma, mas cheia de encantos. Um monstrengo que mais parece um arremedo de boneca-inflável – que tendo grotesca aparência de humanidade, mantém seu interior vazio.
Uma cidade, cuja população, ao perceber a impossibilidade de lidar com suas pobrezas (que são muito maiores que aquela significada em forma de escassez de alimentos, moradia, transporte, escolas, hospitais etc. etc. etc.)  esconde seus famintos (famintos de atitude, de reconhecimento de suas especificidades históricas) em locais "protegidos" (?!?!) por UPPs. Doces sonhos de uma classe média que teima em se sentir segura enquanto meninos são amarrados em postes, jovens são assassinados, pessoas são queimadas em praças públicas.
O episódio – que desnuda a violência atroz – é lamentável, mas desgraçadamente providencial para refletirmos sobre nossas desumanidades cotidianas.

 Rosiane Rodrigues é jornalista, escritora e pesquisadora do Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas (Nufep) da Universidade Federal Fluminense
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