Atenção Comissão da Verdade

PRESO E TORTURADO: Rui Medeiros revela: “O pensamento que tinha era de suicidar”

Rui Medeiros, historiador, advogado, professor, ex-preso político, torturado pelo regime militar
Rui Medeiros, historiador, advogado, professor, ex-preso político, torturado pelo regime militar
Filho de militar, professor universitário e preso político durante o regime ditatorial que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985, o advogado Rui Medeiros prestou um rico depoimento à Comissão da Verdade de Vitória da Conquista, revelando, com detalhes de quem possui uma prodigiosa memória e de quem foi protagonista, todo o conjunto de situações a que eram submetidos os presos políticos dentro dos quartéis. Também membro da Comissão Municipal da Verdade, para cuja instalação foi um entusiasta de primeira hora, Rui é conselheiro federal da OAB, sendo vice-presidente da Comissão Especial da Memória, Verdade e Justiça da instituição. Rui Medeiros foi preso e torturado graças à sua participação em movimentos de resistência ao regime. A primeira prisão ocorreu em 1968, quando protestava em defesa da liberdade dos líderes estudantis, presos pelos militares por causa da realização do Congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna.
A PRIMEIRA PRISÃO: Na primeira prisão – ocorrida em plena manifestação na Avenida Joana Angélica, em Salvador, com outras oito pessoas – permaneceu pouco mais de oito horas na Secretaria de Segurança Pública. No mesmo período, viu aberto contra si um Inquérito Policial Militar, instaurado no Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, por panfletagem em uma greve de professores num curso básico em Salvador, isso rendeu um inquérito policial que não foi à frente, um inquérito.
Com base no Decreto-Lei 477, que punia professores, alunos e servidores do ensino por subversão, Rui Medeiros recebeu outro duro golpe do regime militar, este decorrente de sua vinculação ao Partido Comunista do Brasil/PCdoB: a expulsão, em 1966, da Universidade Federal da Bahia/UFBA, onde cursava Direito. Ele e outros catorze colegas de curso foram proibidos de estudar por três anos.
“Com isso, também terminei perdendo a hospedagem na Residência Universitária e perdendo o direito de me alimentar no Restaurante Universitário. Logo depois, também perdi o emprego que eu possuia, um emprego público. Isso me trouxe dificuldades muito grandes, mas continuei a militar. Retornei um ano depois para o Curso de Direito, porém da Faculdade de Direito da Universidade Católica de Salvador”.
A SEGUNDA PRISÃO: Em 1973, de volta a Vitória da Conquista, já tendo concluído o curso de Direito e iniciado a advocacia, é convidado pelo então prefeito Jadiel Matos para assumir a função de Procurador-Geral do Município (então denominado de Consultoria Jurídica). No entanto, ficou pouco tempo no cargo. Em Maio de 1973, foi novamente preso. Mais uma vez, por suas vinculações com o Partido Comunista. Militares fortemente armados o abordaram na Travessa Adriano Bernardes, o jogaram dentro de um fusca e o conduziram até próximo do Distrito de Inhobim.
“Eles me arrastaram para dentro desse fusca e me levaram para um lugar que é muito conhecido, era a Olaria Cariada, ali perto de Inhobim. Havia uma clareira e, nesse, momento percebi que outro carro chegou conduzindo uma outra pessoa com um chapéu, que eu conhecia. Aí um policial vira para esse antigo militante que havia chegado, sido levado para ali, e perguntado:
“É esse que é Rui Medeiros?”
E ele falou: “É”.
“Você conhece”?
“Conheço, militou comigo no Movimento Estudantil. É essa pessoa. Eu não sabia o nome dele, mas é exatamente essa pessoa que cobriu o ponto comigo”.
AS AGRESSÕES FÍSICAS: Ao negar envolvimento político com os outros presos, passou a ser esmurrado, uma estratégia para forçá-lo a confessar que conhecia as pessoas. Quanto mais negava, mais pancadas recebia. “Depois me conduziram para a sede do DNER e aí voltaram a me dar pancada para eu confessar o ponto, para eu dizer se alguma pessoa ia ter contato comigo… E as pancadas se sucederam, especialmente com o soco inglês, por parte de um agente que o pessoal chamava de Dr. Pascoal, eventualmente um outro vinha e chutava. O Pascoal às vezes também pegava nos testículos e apertava”.
VIOLAÇÃO AO DOMICÍLIO: Depois da sessão de agressões, os militares, tomaram-lhe as chaves de casa e do escritório, onde promoveram verdadeira devassa, com apoio da Polícia Militar local. “Invadiram minha casa e levaram documentos, cartas, cerca de mil livros. A minha mulher tinha acabado de chegar e aí, quando giraram a fechadura, ela pensou que eu estava voltando, qualquer coisa assim. Aí foi quando eles invadiram a casa e mandaram que ela ficasse calada e fizeram uma bagunça”
A FASE DAS TORTURAS: Fato é que, dois dias depois de preso pelo Comando de Operações de Defesa em Terra/COD, que agia em parceria com Polícia Federal, Rui Medeiros foi transferido para Salvador, onde teria início seu verdadeiro calvário, com as temidas torturas físicas e psicológicas. “Me levaram de imediato para a Polícia Federal, fiquei lá também tomando socos, empurrões etc. por dois dias. Depois me levaram para o Quartel Militar, antigo Quartel do Exército de São Joaquim, Águas de Meninos, onde funcionava também a auditoria militar, por incrível que pareça, o serviço judiciário funcionava no andar superior. Eu fiquei ali durante um dia e meio e dali eu fui levado para o Quartel do Barbalho”.
O Quartel do Barbalho, protegido por uma murada de cerca de três metros em pedra pura, era o centro de torturas da Bahia. “Cavadas” nesse muro, em forma de calabouço, ficavam as celas, expostas a sol e chuva. Sem cama, lençol, cobertor ou colchão, dormia-se no cimento. As necessidades fisiológicas eram feitas numa lata de querosene, que eram retiradas de três em três dias.
E então, o mais terrível estava prestes a acontecer: chega a primeira equipe de torturadores e Rui Medeiros é submetido aos terríveis paus-de-arara e choques elétricos. “Um fio é ligado ou ao pênis ou ao dedo do pé e outro fio percorre o seu corpo, percorre seus lábios, percorre sua orelha, às vezes a língua, braço, peito e também o pênis e proximidade do ânus. Você fica ali, quando se percebe que aquilo pode levar a um desmaio etc., aí para um tempo bota no chão ainda com o pau-de-arara,”.
As sessões de tortura eram acompanhadas de interrogatórios que buscavam identificar pessoas ligadas ao movimento de resistência ao regime militar. “Quando eu saia de uma sessão de tortura eu não conseguia ficar em pé. Então eu tinha que ser conduzido ou tinha que engatinhar. Um outro dado é que começa a sentir dores no corpo e quando está nesse trabalho, eu já tinha conhecimento um pouco dessa coisa, geralmente dá vontade de defecar e aí você tem que ao mesmo tempo controlar porque, se isso acontece, e aconteceu com alguns torturados, eles pegam e colocam na boca da pessoa”.
A IDEIA DE SUICÍDIO: Tamanho o sofrimento, revelou Rui aos membros da Comissão da Verdade, que “quando chegava na cela, o pensamento que tinha era de suicidar, encontrar uma maneira de se matar porque o sofrimento era muito grande”. A brutalidade era tamanha, lembra o advogado, que embaraça a mente. “Era essa a situação, eu imaginava que ia sair louco, imaginava qualquer coisa assim, que ia perder também qualquer possibilidade de sexo, porque os choques, quer no pênis, quer nos testículos, eram muito grandes, muito intensos”.
A TRANSFERÊNCIA: Fato é que, 14 dias depois de muita tortura e interrogatórios, Rui Medeiros foi conduzido à 6ª Região Militar, onde encontrou seu pai e sua esposa. “Ela já desconfiava alguma coisa, me viu totalmente sujo, roupa suja, sem cinto. Ela, na hora que aproximou de mim, mesmo na vigilância de um militar, levantou a minha camisa e percebeu as muitas marcas, os hematomas”. Da 6ª RM foi conduzido à Polícia Federal e, de lá, para o Quartel de Amaralina, onde ocupou uma cela normal, com camas inclusive.
A SOLTURA: No dia 14 de agosto de 1973, Rui Medeiros foi convocado pela primeira vez para um depoimento formal, de caráter de polícia judiciária. Antes, seu pai já havia tentado um Habeas Corpus, o que era terminantemente proibido a presos políticos depois de editado o Ato Institucional Nº 5 e que, portanto, foi negado. Na sala, uma surpresa: seu depoimento formal já estava devidamente redigido e com data do dia anterior. O Delegado foi curto e grosso: abriu numa gaveta, botou o revólver na gaveta ao lado e disse: ‘Esse é o seu depoimento. O Sr. assina ou volta para onde está ou para outro lugar”.
“Eu olhei e vi que havia contradições ali, etc., e coisa que não iria incriminar a esta altura pessoas e que inclusive depois chocava com outros depoimentos. Eu assinei. Voltei a Amaralina e o pessoal: ‘Olha, você está liberado e sua família já sabe e virá aqui’. Aí eu saí e fiquei respondendo a processo.

Fonte: http://blogdofabiosena.com.br/v1/preso-e-torturado-rui-medeiros-revela-o-pensamento-que-tinha-era-de-suicidar/#.UpA7CmGaa35.facebook

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