'A religião não foi o determinante no ataque na França', diz especialista

Segundo o professor de Relações Internacionais Fernando Padovani, o gatilho que levou ao atentado ao semanário Charlie Hebdo, em Paris, foi político e pode causar novos episódios

Redação Brasil Econômico redacao@brasileconomico.com.br
“Nem todo fundamentalista islâmico é extremista. Há países com minorias islâmicas, marginalizadas e empobrecidas sem histórico de atentados”, diz o professor Fernando Padovani
Foto:  Fernando Souza/Agência O Dia
Depois dos atentados na França, autoridades e imprensa internacional levantaram um intenso debate sobre o fundamentalismo e os limites da liberdade de imprensa, mas poucos associaram os incidentes à política externa intervencionista, muitas vezes arbitrárias, de potências ocidentais em países de maioria muçulmana do Norte da África e do Oriente Médio. Na avaliação do professor de Relações Internacionais da UERJ e da ESPM Rio Fernando Padovani, foi este gatilho político, e não religioso, que levou à chacina da redação do semanário “Charlie Hebdo” e pode provocar novos ataques de extremistas na Europa.
O debate sobre os atentados na França está dominado pela questão religiosa e da liberdade de expressão. Como o senhor vê isso?

O tema da religião envenena e complica, mas não é determinante. Nem todo fundamentalista islâmico é extremista. Há países com minorias islâmicas, marginalizadas e empobrecidas sem histórico de atentados. Sempre faço essa distinção entre extremismo, Islã, e fundamentalismo, que não gera conflito por si só. O que revolta e torna estas pessoas extremistas é justamente o sentimento de injustiça diante de um Estado, no caso o francês, que de certa forma respeita os seus direitos, mas, externamente, elege alvos geopolíticos que, coincidência ou não, são de maioria muçulmana. Estas pessoas veem o Estado, para o qual pagam impostos, atacar seus países de origem étnica. A França foi desproporcionalmente ativa nos conflitos da Síria, do Iraque e da Líbia, passou por cima da ONU, extrapolou juridicamente.

Essa política não vem de agora...
Mas não é comum na política externa francesa, que tem uma tradição longa de legalismo. Desta vez, a França foi muito ativa e alinhada aos EUA, treinou e financiou grupos terroristas na Jordânia. Após o atentando de 2001, depois com (Nicolas) Sarkozy e, surpreendentemente com o socialista François Hollande na presidência, o país tem sido muito ativo em intervenções encabeçadas pelos EUA. E a atuação americana está acima de qualquer princípio legal ou convenção de direito internacional. A França tem feito o mesmo. No caso da Síria, por exemplo, o país está atuando enfaticamente. Isso gera uma certa contradição na cabeça do muçulmano que vive na “pátria dos direitos”, mas vê o Estado agir tão arbitrariamente quanto os EUA. Este é o detonador do processo. Eles não fazem atentado contra a China, contra a Rússia, nem contra o Brasil, que vê a população muçulmana, islâmica e fundamentalista crescer na região das três fronteiras. Ali tem palestinos, afegãos, iraquianos refugiados, mas estamos longe de sofrer atentados porque não invadimos nenhum país. Estes ataques se dão no Canadá, na Espanha, na Grã-Bretanha e em outros países envolvidos em frentes de batalha no Oriente Médio.
Um presidente socialista agir assim não é contraditório?
Sim. Hollande tem feito um governo extremamente impopular, com alguns picos de aprovação durante a intervenção da França no Mali, quando ele foi lá, vestiu colete anti-balas e posou com as tropas, bem no estilo George W. Bush. Ele aprendeu. Tanto que foi super-ativo na questão da Síria, como se houvesse interesses franceses diretamente envolvidos. O fronte interno está tão ruim, com a economia sem horizonte, desemprego alto e insatisfação geral, que só mesmo a política externa para distrair um pouco a atenção. Agora, este episódio pode unir os franceses diante do inimigo externo comum. Por isso, ele tende a adotar medidas espetaculares, como colocar 10 mil soldados nas ruas.
A extrema direita francesa e de toda a Europa capitalizou com os episódios?

O jogo ainda está em aberto, mas acho que eles vão tirar benefício disso tudo sim. Não acredito que a população francesa saia dessa crise pensando melhor da comunidade muçulmana. Se aumentar a Islamofobia, o preconceito, eles ganham. Quem está no alvo da disputa dos políticos é o eleitor médio, que vota aqui e ali nos partidos do centro. Duvido que a população francesa diminua seu preconceito, que já era forte antes. O francês médio não gosta das culturas minoritárias, tem muita dificuldade de integração. Os franceses podem conviver republicanamente, mas dentro de casa eles não gostam. E esse sentimento vai aumentar. A classe média francesa já tinha um pé e meio atrás com qualquer garoto chamado Mohammed. O pesadelo de qualquer francês é que a filha ache um namorado chamado Mohammed.

Se os ataques continuarem, pode haver um choque de civilizações na linha do que previu Samuel Huntington?
Não. Ele dizia que antes brigávamos por nacionalismos, depois por ideologias, como na Guerra Fria, e que, agora o leque ampliaria de novo e passaríamos a brigar por civilizações. Mas as civilizações não são uma contradição em si, elas convivem ainda mais porque há comércio, comunicações, trocas. Elas tendem a se completar e não a se confrontar. A religião, por si, não provoca uma combustão sozinha. O que está por trás são assuntos estratégicos, envolvendo, por exemplo, o petróleo e a garantia da existência do Estado de Israel. O que acontece ali não é uma disputa civilizacional contra o mundo islâmico, mas um conflito estratégico contra a Síria e países vizinhos.
Os ataques teriam sido mesmo coordenados à distância pela Al-Qaeda do Iêmen?
Acho que é mais uma ação isolada de dois garotos identificados com grupos extremistas do que qualquer outra coisa. Trata-se mais de uma franquia em que qualquer um pode participar, sem um comando central forte ou fluxo de dinheiro orientado. A Al Qaeda está mais próxima de uma ideologia do que uma organização concreta.
Colaborou o estagiário Gabriel Vasconcelos

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