“Biografia” do DOI-Codi é lançada com ex-agente do Dops na plateia


ALESP
Livro é resultado de dez anos de pesquisas e entrevistas, inclusive com 25 agentes. Autor conta que o coronel Ustra tentou proibi-los de dar declarações. Relatos detalham 66 mortes, 39 sob tortura
16/12/2014

Vitor Nuzzi

de São Paulo (SP)

da Rede Brasil Atual
O lançamento de um livro sobre o mais ativo centro de repressão da di­tadura, o DOI-Codi paulista, teve tam­bém uma representação dramática e re­al, ainda que em menor escala, do que fo­ram aqueles tempos. Durante apresenta­ção na Assembleia Legislativa, a convite da Comissão Estadual da Verdade “Ru­bens Paiva”, dia 12 de dezembro, o jorna­lista Marcelo Godoy dava detalhes de seu livro A Casa da Vovó, resultado de dez anos de pesquisas e 97 entrevistas, sen­do 25 com agentes – que aceitaram falar para contrariedade do coronel Carlos Al­berto Brilhante Ustra, comandante da­quela unidade nos anos de 1970. Quase no final, um senhor tomou a palavra. Era um ex-investigador do Dops, Carlos Al­berto Augusto, o Carteira Preta, 70 anos. Completados, por sinal, em 1º de abril deste ano, no cinquentenário do golpe. Entre presos políticos, ganhou o apelido de Carlinhos Metralha, que o irrita.
Seguiram-se 20 minutos de diálogo até certo ponto respeitoso, mas tenso e áspero, entre Godoy, o deputado Adria­no Diogo (PT), presidente da comissão, e o agora delegado, que se apresentou co­mo amigo, “com muito orgulho”, de Ca­bo Anselmo (José Anselmo dos Santos, líder dos marinheiros em 1964 e, poste­riormente, delator a serviço do regime). Também disse que compraria dois livros – como de fato comprou –, e que um de­les seria para presentear Ustra.
Godoy lembrava que seu livro identifi­cava autores diretos de crimes como se­questro, tortura e morte. Com versões di­ferentes daquelas apresentadas por Us­tra. “A estratégia do DOI era de neutrali­zação do inimigo, era uma estratégia mi­litar. Não era um órgão policial”, diz o jornalista sobre um dos principais sím­bolos da repressão, criado em 1969 ainda como a Operação Bandeirante (Oban), ganhando o nome Destacamento de Operações de Informações (DOI) em se­tembro de 1970. O livro busca mostrar “quem são e o que pensavam os agentes e seu chefe e símbolo, o coronel Ustra”.
De capacete (“símbolo de segurança”) e gravata borboleta preta (“luto pelas ví­timas dos ‘terroristas’”), Carlos Alberto Augusto, que atuou no Dops de 1970 a 1977, sob o comando de Sérgio Paranhos Fleury – que disse considerar um herói –, iniciou sua fala atacando os “comunis­tas”. Godoy o interrompeu, afirmando que se tratava de um discurso conheci­do. “O que não se conhece é o que de fato o senhor fez”, retrucou. “Quem quer pre­servar a memória não queima a memó­ria, conta o que sabe.”
“Estive infiltrado na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária, organização de esquerda), tendo contato com assaltan­te de banco e terrorista (como os milita­res se referiam aos militantes políticos)”, disse Augusto. Não negou ter participa­do da organização do chamado massacre da Chácara São Bento, em Pernambuco, em 1973, quando seis militantes da VPR foram mortos. “Não era chácara, era área de guerrilha”, contestou. Disse ainda ter escapado da morte, ao lado de Anselmo, após ser julgado por um “tribunal revo­lucionário”.
Juntamente com Ustra e com o tam­bém delegado Alcides Singillo, é apon­tado pelo Ministério Público Federal co­mo autor do sequestro do corretor Edgar de Aqui Duarte, em 1971. “Nunca conhe­ci”, afirmou. Em entrevistas, ele também negou a ocorrência de torturas durante o período autoritário. “Nunca trabalhei no Exército ou no DOI-Codi, mas respeito muito esses homens”, disse ontem.
O nome de Carlos Alberto Augusto consta da lista de 377 responsáveis por graves violações de direitos humanas no relatório final da Comissão Nacional da Verdade, divulgado na última quarta­-feira (10). “Teve participação em casos de detenção ilegal, tortura e execução”, diz o documento. A inclusão no relató­rio revoltou o delegado, que disse não ter sido chamado a depor. “Convocado para prestar depoimento à CNV, não foi localizado”, afirma a comissão no rela­tório. No ano passado, ele foi alvo de um “esculacho” em Itatiba, no interior pau­lista, para onde havia sido transferido como delegado.
Em vários momentos, Augusto criticou os “terroristas”, referindo-se a militantes políticos, e se dirigia à plateia, citando, entre outros, Maria Amélia (Amelinha) Teles, que esteve presa no DOI-Codi e as­sessora a comissão estadual. O deputado Adriano Diogo interveio: “O senhor fale o que quiser, mas não enquadra. Não en­quadra. Não ameace”. E solicitou que o ex-agente se dirigisse apenas à mesa.
Sequestro da memória
Depois da intervenção, e ainda na pre­sença de Augusto, o autor do livro criti­cou esse comportamento, observando que era um exemplo das dificuldades de se pesquisar o período autoritário. “Al­gumas pessoas continuam sequestran­do a memória. É contra isso que se bate e se luta.” E lembrou que foram os pró­prios “colegas” do agente que falaram e admitiram a ocorrência de torturas, se­questros e mortes, apesar da determina­ção do ex-comandante, que “ligou dire­tamente para vários agentes ordenando que eles ficassem em silêncio”.
Ao final do debate, Augusto ficou na fi­la para autografar os exemplares. Per­to dele, um homem que o acompanha­va causou preocupação. Punha repetida­mente as mãos à altura da cintura, onde havia um objeto, e houve quem receasse que estive armado. Não estava. Era um smartphone. Que ele usou, por sinal, pa­ra tirar uma fotografia do autor do livro e um personagem, citado à página 263. Houve tempo ainda para uma mensagem de Godoy ao portador: diga ao Ustra que as fontes – os antigos agentes que deram depoimentos – não serão reveladas.
Foi um longo trabalho de aproxima­ção, para que então eles começassem a falar. Para isso, era importante não ten­tar transparecer nenhum tipo de conde­nação prévia. “Era necessário compre­ender por que agiram dessa forma”, dis­se o autor, repetindo que “compreender não é aceitar”. Mesmo que estivessem em uma guerra – termo que causou al­guma polêmica conceitual durante o de­bate –, não haveria qualquer justificati­va para cometer crimes contra a huma­nidade. Duas pessoas pediram que nem sequer o codinome fosse citado. Outros autorizaram a divulgar o “nome de guer­ra”, enquanto alguns não fizeram qual­quer tipo de reserva.
“Cada linha deste livro foi muito pen­sada. Traz informações, relatos e dados muito sólidos”, diz o editor da obra, Ha­roldo Ceravolo Sereza, que dirige o si­te Opera Mundi. Para Adriano Diogo – que também foi preso e torturado na­quele local –, mais do que um livro, tra­ta-se de “um documento, uma das maio­res contribuições para a recuperação da memória brasileira”. É um retrato do mais conhecido centro de torturas da ditadura, que originou o primeiro desa­parecido (Virgílio Gomes da Silva) e on­de morreram dezenas de pessoas, com alguns casos emblemáticos, como os do jornalista Vladimir Herzog, morto após tortura em 1975, e do operário Manoel Fiel Filho, no ano seguinte.
Morto a pedradas
“Até hoje muitos dos que trabalharam lá preferem chamá-la de Casa da Vovó, pois, como explicou um de seus agentes, “lá é que era bom”. A antinomia é evi­dente. Ainda mais quando esses homens e mulheres resolveram contar o que sa­biam sobre as mortes de 66 pessoas, das quais 39 sob tortura após a prisão e ou­tras 27 depois de gravemente baleadas durante a detenção no que foi descrito como emboscadas ou tiroteios. Em seus depoimentos surgiram relatos de como foram presas 19 pessoas que oficialmente desapareceram em meio ao chumbo da­queles anos. Há também corrupção, sa­que e traição”, diz o autor, na apresenta­ção do livro, que surgiu a partir de pes­quisas sobre a Polícia Militar. “A Polí­cia Civil e o Exército já tinham sido sufi­cientemente estudados, mas a PM ainda não”, justifica Godoy. Está ali descrito, por exemplo, o assassinato de Antonio Benetazzo, dirigente do Movimento de Libertação Popular (Molipo), preso no fi­nal de 1972. Depois de interrogatório, foi levado a outro local, na periferia de São Paulo (o Sítio 31 de Março), golpeado na cabeça e jogado no chão. Uma das rodas do Fusca que levava os quatro agentes e seu prisioneiro passou por cima da cabe­ça do militante. Os algozes acharam su­ficiente para a encenação de atropela­mento. Mas no caminho para o bairro do Brás (em cujo distrito havia um delegado “amigo”), Benetazzo acordou. Os agentes voltaram ao sítio “para terminar o servi­ço”, matando o prisioneiro a pedradas.
“A história de Benetazzo é desses se­gredos que os militares gostariam de ver sepultados. Trata-se de um caso brutal e traumático, um tabu entre os próprios in­tegrantes da Casa da Vovó”, escreve Go­doy. E prossegue, linhas adiante: “O es­quecimento era o desejo de Ustra”. Mas o jornalista conta que serão os antigos su­bordinados do coronel “que vão revelar uma das mais cruéis execuções do Desta­camento”. Uma das fontes do jornalista, identificada apenas como Tenente Chico, levou um ano, após o primeiro encontro, para contar a história, que deixou mar­cas, como ele relata no livro.
Você não tem ideia do que é passar uma noite inteira vendo um homem e saben­do que no dia seguinte ele vai morrer... E você ali com ele... Essa foi uma das coisas que me deixaram mal depois. Todos nós carregamos um fantasma que te acompa­nha a vida inteira. Esse é o meu.
Na primeira conversa, quando veio acompanhado de um coronel, o agen­te não quis dar nem o nome. Durante o diálogo, provocou o jornalista, achando as perguntas “fáceis” demais – era ape­nas o início, cuidadoso, da abordagem de Godoy, que quis saber o porquê. “Vo­cê não quer saber como era o pau?”, per­gunta o interlocutor. Ele lembra que atu­ar naquele local não era obrigatório. “Ha­via um aspecto voluntário de trabalhar no DOI. Havia possibilidade de recusar. Quem ficou queria trabalhar lá.” A área, entre os bairros de Vila Mariana e Paraí­so, na Zona Sul paulistana, abriga hoje o 36º Distrito Policial. Entidades de direi­tos humanos e de familiares de mortos e desaparecidos querem transformar o lo­ca, já tombado, em memorial.
Os depoimentos dos agentes também revelam naturalidade na descrição de su­as ações cotidianas. E trazem à luz ou­tros personagens. Como o capitão Ênio Pimentel da Silveira, o “Doutor Ney”, ou “Neyzinho”, que Godoy aponta no livro como “um dos maiores responsáveis pe­lo esmagamento da guerrilha urbana no país”. E acrescenta: “Se o Dops teve o de­legado Sérgio Paranhos Fleury, o DOI te­ve o capitão Ênio”. Foi o homem que “co­mandou em pessoa o sequestro, a tortura e a morte de pelo menos quatro dezenas de pessoas em São Paulo”.
Em livros de registro de acesso ao Dops, na década de 1970 – uma desco­berta da comissão estadual –, o nome do oficial aparece com frequência. Ele mor­reu em 1986, oficialmente por suicídio, versão que alguns contestam. “Teria uma carreira brilhante se problemas financei­ros e afetivos não o tivesse levado ao sui­cídio”, disse Ustra, por e-mail, em 15 de março de 2005, ao autor do livro.

http://www.brasildefato.com.br/node/30830

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