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#SalaSocial: As divisões políticas estão alimentando o preconceito?

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Bruno Garcez, Editor de mídias sociais
Boa tarde! Assim que começou a apuração de votos das eleições 2014 nas regiões Norte e Nordeste, no dia 4 de outubro, onde a candidata do PT, Dilma Rousseff, teve votação bem superior à do rival, Aécio Neves, pipocaram nas redes sociais comentários como estes aqui.

De lá para cá, surgiram ainda mais manifestações de preconceito. O #salasocial de hoje discute se as divisões políticas no Brasil estão ampliando o preconceito no país.

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Quem também acabou se envolvendo na discussão foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em entrevista ao Uol, FHC relacionou as conquistas eleitorais do PT à desinformação e ao que chamou de uma caminhada do PT para os 'grotões'."
"O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres", disse FHC, segundo o UOL.
"Não é porque são pobres que apóiam o PT, é porque são menos informados", acrescentou.
A BBC Brasil contactou Fernando Henrique Cardoso, mas, segundo sua assessoria, ele não pôde responder devido a ele estar muito gripado, com febre, e em em repouso absoluto desde segunda-feira.

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Ricardo Senra , Da BBC Brasil em São Paulo

A BBC Brasil contactou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nordestino de Caetés, Pernambuco, sobre o assunto.
Em nota, o petista criticou a retomada do discurso de ódio nas redes:
"É lamentável o preconceito que vem à tona depois de um processo democrático tão importante, como as eleições do último domingo. É um absurdo que o nordeste e os nordestinos sejam caracterizados como ignorantes ou desinformados por seus votos. Primeiro porque isso é fruto de preconceito lastimável, segundo porque mostra um desconhecimento profundo da atual situação do nordeste brasileiro. Quem faz afirmações deste tipo imagina o nordeste da década de 90 ou de antes, onde reinavam a fome, o desemprego e a falta de oportunidade. Por isso muitos, como eu, tiveram que abandonar sua terra natal e migrar para outras regiões em busca de melhores condições de vida."

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Lula continuou sua crítica e enumerou feitos dos governos petistas:
"Hoje, o nordestino anda de cabeça erguida porque não é mais tratado pelo governo como cidadão de segunda categoria. Das 18 universidades criadas nos 12 anos de governo, 7 são no nordeste. A região conta hoje com 62 extensões universitárias. Mais de 16 mil estudantes dessas universidades foram estudar no exterior com o Ciência sem Fronteiras. Dos 20 milhões de empregos criados no país, quase 20% foram no nordeste. 141 escolas técnicas foram implantadas na região, representando 33% do total no país. A mortalidade infantil, que era um dos principais problemas da região caiu a menos da metade. Os nordestinos, hoje, não são mais personagens de tristes reportagens sobre as migrações para os grandes centros urbanos. Eles podem viver nas suas terras de origem com dignidade e oportunidade."

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Ao finalizar, o ex-presidente chamou os brasileiros a se unirem:
"Somos todos brasileiros e temos que nos unir para continuar construindo um país mais solidário, mais justo, com mais oportunidades para todos, independente de cor, crença, religião ou região do país em que cada um tenha nascido. As pessoas deveriam ser agradecidas pela diversidade do nosso grande país. Essa é a nossa riqueza.

Lula"

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Muitos leitores estão dizendo que as mensagens contra nordestinos seriam postadas por perfis falsos, criados para fazer oposição à candidatura do PSDB.
Em Belo Horizonte, segundo o jornal O Globo, a equipe jurídica do tucano Aécio Neves, está analisando perfis nas redes sociais em busca de provas sobre "fakes ou apócrifos perfis que se fazem passar por eleitores tucanos para ofender negros, pobres e nordestinos".

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Os comentários do ex-presidente tucano FHC também vêm rendendo demonstrações de apoio no debate promovido pelo #salasocial:

TWEET 1401

Rafael Monteiro
Em reação aos comentários preconceituosos, internautas ajudaram a hashtag #MenosOdioMaisNordeste a se tornar um dos trending topics brasileiros e até globais. Ela foi retuitada mais de 41 mil vezes.
No seu auge, ela chegou a render 153 tuítes por minuto.

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Os cidadãos que se sentirem ofendidos têm dois caminhos principais para encaminhar suas denúncias, sem precisar sair de casa.
Denúncias sobre xenofobia podem ser encaminhadas diretamente ao Ministério Público Federal, pelo site do MPF: http://cidadao.mpf.mp.br/formularios/formularios/formulario-eletronico
Denúncias sobre ofensas na web podem ser feitas pelo site da ONG SaferNet: http://www.safernet.org.br/site/denunciar

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Muitos comentários preconceituosos voltados contra nordestinos renderam, inclusive, uma conta de Tumblr, chamada Esses Nordestinos...compilando alguns exemplos como este:

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Em resposta à conta de Tumblr reunindo comentários preconceituosos contra nordestinos, foi criado também outra conta, intiulada Esses Paulistas, que compila posts ofensivos contra pessoas de São Paulo. A conta indaga: "E preconceito contra paulista, pode?"

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A professora dra. Ana Raquel Rosas Torres, do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Universidade Federal da Paraíba, pesquisa preconceito e discriminação, com ênfase no preconceito racial.
Conversamos com ela, dê uma olhada:
BBC Brasil - Comentários como estes respresentam casos isolados ou são sinal de que o preconceito ainda está vivo e presente no Brasil de hoje?
Ana Raquel Rosas Torres - Infelizmente, não. As pesquisas que temos realizados sobre preconceito e discriminação contra negros e nordestinos apontam que, enquanto as expressões discriminatórias explícitas e flagrantes contra o primeiro grupo mostram uma tendência à diminuição, no que se refere aos nordestinos, isso ainda não acontece. Seria mais ou menos assim: a norma social que inibe o preconceito e a discriminação explicita contra negros já está razoavelmente consolidada em nossa sociedade. Assim, não seria socialmente aceitável você " xingar" um negro. No entanto, contra os nordestinos, " ainda pode", pois a norma social que inibiria esse tipo de expressão ainda não é suficientemente forte. Vale ressaltar que a inibição das expressões flagrantes não significa a diminuição do preconceito e da discriminação. Significa que o fenômeno vai adquirindo novos contornos para se tornar socialmente mais "palatável". Finalmente, também é importante lembrar que na eleição passada, quando a presidenta Dilma foi eleita, presenciamos o mesmo tipo de fenômeno.

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A conversa com a professora Ana Torres continua:
BBC Brasil - As mídias sociais funcionam como “refúgio” para pessoas que não teriam coragem de fazer tais observações em público ou são só um fórum mais discreto do que fazer tais pronunciamentos em público?
Ana Raquel Rosas Torres - O anonimato ou o pseudo anonimato é uma variável importante para as expressões flagrantes de opiniões e comportamentos que não são socialmente aceitáveis. No entanto, nossas pesquisas também mostram que o contato mediado pela internet também pode ajudar na diminuição de tais comportamentos.
BBC Brasil - Como a senhora você viu os comentários do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de que o PT está “fincado nos menos informados " e que o PT estaria caminahando “dos centros urbanos para os grotões”, em referência ao resultado das eleições?
Ana Raquel Rosas Torres - Talvez uma forma mais educada de expressar o que foi expresso nos fóruns e blogs.
BBC Brasil - A divisão política e/ou ideológica no Brasil está pouco a pouco se convertendo em uma divisão entre Sul e Norte no Brasil ou entre as classes médias e alta tradicionais e as classes C,D e E?
Ana Raquel Rosas Torres - Provavelmente, sim. Embora a divisão Norte/Sul não seja uma coisa recente. Basta olhar a história do Brasil para perceber que esta divisão acompanha a nossa história. No entanto, cabe ressaltar que essa divisão não representa uma ameaça à percepção da unidade cultural do Brasil. Ou seja, apesar da percepção de existem vários " Brasis", por exemplo, o do sul, o do nordeste, o negro, o rico o pobre., isso não significa um desejo de cisão dos país. Nosso ideal de um país com grande diversidade, mas unido pelo sentimento de "ser brasileiro" é mais forte.


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A gente conversou também com a socióloga, cientista política e professora na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rosana Schwartz, sobre o tema. 
Confira a entrevista.
BBC Brasil: Comentários como estes respresentam casos isolados ou são sinal de que o preconceito conta nortistas e nordestinos ainda está vivo e presente no Brasil de hoje?
Rosana Schwartz: A construção dos preconceitos são históricas, sociais, políticas e culturais. Nosso processo civilizatório foi "perverso" e depedrador, dentro de um imaginário social desenvolvido por mitos e utopias fundadoras, Celtas, Romanas/Gregas e Medievais cristãs. Esses mitos aventavam a existência de um local festivo, paradisíaco, onde as pessoas não precisavan trabalhar, o ócio era valorizado e ao mesmo tempo infernal e quente. A sociedade patriarcal do Senhor de Engenho foi edificada nos moldes das relações de poder e não nas relações políticas.
Relação arbitrária, despótica e pessoal. Tudo podia ser feito pelo senhor de engenho e depois do café. No seculo 19, o Brasil recebe interferência significativa das teorias européias desse período, durante o processo de implantação da República - A coisa pública. Essas teorias afirmama existir uma raça superior branca e civilizada que teria o fardo de levar o desenvolvimento para as regiões atrasadas. Essa raça européia e norte-americana por se considerar superior e civilizaria cria e recria preconceitos com relação às demais. O fardo do homem branco de civilizar os outros. Com a abolição da escravatura e a entrada de imigrantes europeus em diversos fluxos e períodos essas teses e a do imigrantismo que valorizava- o branqueamento da raça mestiça brasileira, desqualifica o indivíduo nacional. Este não podia comprrar terras e nem arrumar trabalho, diante da mão-de obra européia que entarva em massa no país. Os maiores fluxos desse imigrantes ocorreram no sul e sudeste. São Paulo industrializando-se no XIX, se apropria desse imaginário e recria uma identidade voltada para a ideia de ordem, progresso e grandiosidades dos imigrantes e dos bandeirantes. Seu crescimento é gigantesco acmpanhando as transformações do período. os nordestinos, nortistas mestiços passam a ser vistos como atrasados e desqualificados. Esse preconceito ainda está vivo, pois pertence a longa duração na história e necessita ser desconstruído.

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Continua aqui o nosso bate-papo com a socióloga Rosana Schwartz.
BBC Brasil: As mídias sociais, de onde tais comentários emergiram funcionam como um “refúgio” para pessoas que não teriam coragem de fazer tais observações em público...
Rosana Schwartz: As redes sociais, são locais de socialização e de múltiplas expressões. Fazem parte do mundo hipermoderno. Ao mesmo tempo que nos informam perpetuam preconceitos construídos no passado. Revelam a trajetória identitária dos seus protagonistas. Os preconceitos são culturais, por isso aparecem fortemente nas redes sociais.
BBC Brasil: Ou as mídias sociais estão contribuindo justamente para a propação de um discurso de ódio que antes não ganhava tais proporções?
Não, as redes sociais revelam problemas históricos que devem ser problematizados e trabalhados no sentido da sua desconstrução. O ódio, a aversão, faz parte do estranhamento, do encontro de culturas e comportamentos diferentes, esse movimento cria e recria um entre lugar, uma reação. que uma vez desvelada nas redes sociais, podem ser debatidas e desconstruídas.

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E eis aqui a última parte da nossa entrevista com Rosana Schwartz.
BBC Brasil: Como a senhora você viu os comentários do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de que o PT está “fincado nos menos informados " e que o PT estaria caminahando “dos centros urbanos para os grotões”, em referência ao resultado das eleições?
Rosana Schwartz: Na nossa sociedade, o preconceito é de gênero, raça/etnia e classes socias. Nossa escravidão foi muito longa e não promoveu a inclusão do negro e mestiço na sociedade de classes. Como os nordestinos são em sua maioria mestiços, indivíduos que não conseguiram se incluir, devido à falta de políticas públicas durante décadas, em terras de coronéis brancos, esse comentário ganha respaldo.
BBC Brasil: A divisão política e/ou ideológica no Brasil está pouco a pouco se convertendo em uma divisão entre Sul e Norte no Brasil ou entre as classes médias e alta tradicionais e as classes C,D e E?
Rosana Schwartz: Sempre foi assim, é só lembrar da política café com leite, dos coronéis do açúcar, entre outras. O Brasil foi construído sob a bases dos preconceitos de gênero, raça, etnia e classes sociais. É uma ilusão afirmar que não existem essas reações em nosso país. A desconstrução dos preconceitos deve ser iniciada com estudos mais aprofundados nas universidades, políticas públicas, leis que punam qualquer tipo de discriminação.

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O cantor e compositor paraense Chico César foi um dos que comentou para o #salasocial a onda de comentários preconceituosos contra nordestinos e pobres:
BBC: Comentários como estes vistos nas redes sociais respresentam casos isolados ou são sinal de que o preconceito conta nortistas e nordestinos ainda está vivo e presente?
Chico César: Não acredito que esses casos isolados representem um preconceito generalizado contra nordestinos ou nortistas. São Paulo votou mal e nem por isso ninguém vai dizer que paulistanos em geral pensam definitivamente assim ou assado por causa disso. O Rio Grande do Sul votou mal ao deixar de fora de sua representação parlamentar nomes como Pedro Simon e Olívio Dutra. E agora? todos os gaúchos são estúpidos? Não. Há um pensamento conservador de destruição e esvaziamento da política com "P" maiúsculo que quer nos levar a pensar assim, a traduzir manifestações isoladas como tradução do todo. Esse pensamento conservador e desmotivador da grande política, esse sim, tem-se alastrado com o vasto apoio da mídia corporativa brasileira. São Paulo não combina com generalizações. Elegeu prefeita, por exemplo, a paraibana e petista na época Luiza Erundina. Um pouco depois o negro e carioca Pitta. É terra de punks e skinheads, de programa de auditório e poesia concreta, de uma das maiores paradas gays do mundo e dos políticos mais conservadores nessa área. Diria que Porto Alegre, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis, Belo Horizonte também não combinam com um pensamento único ou preconceituoso nesse nível. E Belo Horizonte, terra do candidato do PSDB, elegeu o PT no primeiro turno.

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Continua aqui o nosso bate-papo com Chico César.
BBC Brasil: Esse estigma de que nortistas e nordestinos são menos instruídos já está superado ou você ainda se depara com esse tipo de visão?
Chico César: Claro que há esse tipo de visão ainda, mas ela depõe mais contra quem a expressa do que contra os nordestinos ou nortistas. Trata-se de gente que perdeu privilégios ou que se sente insegura nem por ter perdido mas por perceber que o outro que se encontrava abaixo dele nas possibilidade de acesso aos bens e serviços agora não está mais. Encontra-se mais próximo, ou no mesmo patamar. É gente assustada por ter de dividir o elevador social com quem antes ia pelo elevador de serviço.

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